quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Crucifixos e Água Benta

Não esperem encontrar neste “post” estórias bizarras ou testemunhos ergóticos temperados com alho, pois não farei aqui nenhuma exposição sistemática a respeito dessa criatura imaginária, saída da anti-estrutura social, à qual os Eslavos deram o nome de “vampiro”. Em vez disso, procurarei apenas dar a minha opinião sobre este tema – que parece ter voltado à ribalta, ou não vivêssemos nós uma fase neo-romântica, devido a factores de ordem sócio-cultural – que invadiu as nossas televisões, segundo me apercebi muito recentemente.
Um vampiro assume muitas formas. A ideia de um cadáver que se ergue do túmulo parece não passar de uma antropomorfização do conceito de doença ou, mais simplesmente, da recusa do nosso inconsciente em compreender e tolerar a questão da morte.

Numa novela de pendor gótico, o vampiro emerge sob uma aparência humana, enquanto na novela romântica este sobrevém com uma outra roupagem, a da patologia mental, como nos romances novecentistas. A diferença entre estes dois géneros literários, no fundo tão próximos, prende-se com as transferências de valores plásticos, em que a imagem de ossos humanos, sobretudo de caveiras, no primeiro caso, é transformada em pensamentos e sentimentos no segundo, do mesmo modo que um castelo pode ser convertido em mansão e um dragão num amor proibido. O reinado da rainha Victória constituiu-se como uma época de forte opressão ética e moral, embora de florescimento económico e artístico, o que dá consistência à teoria psicanalítica que vê na mordida do vampiro um meio de expressão de cariz sexual, já que o que está em causa a nível do simbólico é a ideia de penetração, algo que não produz novidade e do qual o mito grego de “Leda e o Cisne” era já paradigmático.

No romance de Charlotte Brontë, “Jane Eyre”, a esposa louca de Mr. Rochester acha-se trancada numa divisão escura, fora do alcance dos olhares curiosos. Ela é por excelência o vampiro que suga a energia daquele lar e que a todos causa repulsa e constrangimento. Os nossos hospitais psiquiátricos albergam uma vasta variedade desta tipologia, gente que se tornou incómoda para os seus semelhantes, pessoas que sofreram traumas impostos por uma sociedade que não as soube proteger da violência, da miséria, da guerra e do crime e que, por fim, lhes volta as costas, encerrando-as num lugar próprio para o dito efeito e sob o lema “o que não se vê, não se sente”.

A imagem do vampiro, conforme a literatura gótica e o cinema a concebem, migrou para o Leste europeu na bagagem cultural dos povos eslavos oriundos da Rússia Branca e da Polónia. Destes, apenas as tribos que se fixaram a Este do Elba conservaram impressões da sua religião original. A mitologia destes povos, forjada pela fome e pela dureza do clima, falava de mortos que se alimentavam do sangue dos vivos para sobreviverem ao túmulo, espalhando a doença nas aldeias. É notória a repetitiva associação entre o mito do vampiro e a proliferação de epidemias. Não precisamos de retroceder tão longe quanto o século V d.C. para percebermos este fenómeno, visto que há pouco mais de cem ou duzentos anos o vampiro dava pelo nome de “tuberculose”, como sucedeu, por exemplo, em Halifax, Nova Escócia, onde os habitantes chegaram a desenterrar corpos considerados suspeitos…

Para além de vampiros, a religião eslava fala-nos acerca de lobisomens; de “rusalki”, donzelas que sofreram uma morte prematura; de Bagnik e Bolotnik, homens velhos e imundos que habitavam os pântanos; e de “vila”, mulheres muito belas e fatais como sereias. O culto do deus Perun, patrono do raio e do trovão, foi completamente banido em 988 pelo rei Valdamarr I, o “Grande”, de origem viking, que , após converter-se ao Cristianismo, ordenou a destruição dos templos de Kiev e de Novgorod. A estátua do deus, com a sua cabeça de prata e barba de bronze, foi engolida pelas águas do Dniepre. O culto deste deus desenvolveu-se na Escandinávia sob o teónimo “Tor”. Uma outra deusa, Mielikki, patrona da caça e das florestas, que podemos encontrar na Europa Oriental até pelo menos ao século XVIII, era igualmente cultuada pelos escandinavos, o que não surpreende, visto Kiev ter sido uma colónia viking.

A meu ver, o vampiro de longe mais complexo e fascinante é o antropológico. É para este que chamo especial atenção, por tão raramente ser retratado e tantas vezes negligenciado.

Os Ndembu, povo semi-nómada e matriarcal do norte de Angola, estudado por Victor Turner e documentado na sua obra “The Forest of Symbols”, lançam uma luz completamente nova sobre o mito do vampiro através das suas crenças e rituais muito particulares. Para este povo, a figura do caçador é a mais prestigiada. Ele pode ser visto como uma personagem-tipo ou um actante, uma vez que encarna a bravura de espírito e o desafio das forças incógnitas e misteriosas que as florestas abrigam. Para se ser um bom caçador é preciso falhar. Só alguém que já tenha sido confrontado com a perda e com a derrota tem capacidade de assumir a liderança numa actividade perigosa. Um caçador valoroso que já tenha dado mostras da sua valentia é considerado protegido pelos antepassados, tem um mecenas que não pertence mais ao mundo dos vivos, e torna-se “mãe dos caçadores”. Esta função, roubada às mulheres, prende-se com uma apropriação de estatutos num jogo identitário que classifica o “grande caçador” como uma espécie de matriarca, já que é à mãe Natureza que ele vai buscar a carne. É precisamente aos antepassados da mãe que o caçador pede auxílio antes de se embrenhar na mata escura e densa, território desconhecido onde um sem-fim de criaturas malignas e poderosas o espreitam. A alma do morto guia o caçador até à caça. A sua função é a de revelar o que se encontra oculto. Quando o caçador retorna à aldeia, coloca a peça de carne ensanguentada sobre um altar bifurcado, o “chising’r”. O sangue escorre pela haste para debaixo de um tufo de erva onde o antepassado se esconde para o beber, antes de a carne ser distribuída pelos aldeões. É curiosa a analogia entre este gesto e o de um padre durante a missa. O vinho, que representa o sangue de Cristo, é tomado pelo sacerdote, mediador do Além, enquanto a hóstia, representativa da carne de Cristo, é dada aos fiéis…

As almas dos antepassados necessitam de sangue para voltarem à vida. No útero, os bebés são alimentados com o sangue materno, daí a grande importância do papel da mãe. É através das mulheres que os antepassados poderão reencontrar o caminho para a vida. Assim sendo, enquanto as mulheres da tribo dão o seu sangue aos filhos, os homens Ndembu chamam a si a função feminina de alimentar os espíritos dos mortos para que estes continuem a favorecê-los durante as caçadas.

O vampiro há muito deixou de ser um exclusivo da mitologia, o que sem dúvida justifica tão grande protagonismo. Não é mais entre campas empoeiradas ou dentro de caixões decrépitos que o devemos procurar, mas num cemitério mais vasto: o da mente. Crucifixos e água benta nada podem contra o vampiro psicológico, parasita da estrutura do Ego, que nos domina e consome. Faz todo o sentido o seu regresso aos tempos de agora, numa sociedade que se auto-corrói e que ocupa os seus membros com tarefas que nada produzem. Lisboa é um vampiro gigantesco, um monstro de enormes dentes e bocarra escancarada, uma gárgula que desde a Idade Média devora o trabalho árduo das vilas e aldeias que a alimentam. Os dirigentes políticos vieram sobre nós de mansinho “batendo as asas pela noite calada” e se não acordarmos a tempo “eles comem tudo e não deixam nada”!




segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010


Há pouco tempo, um jovem de treze anos perguntou-me se antigamente as pessoas eram mais inteligentes e mais cultas do que as de hoje em dia. A pergunta não me surpreendeu, uma vez que eu própria já a havia feito vezes sem conta quando tinha a idade dele.
A época que estamos a atravessar – e que muito seguramente será considerada pelos historiadores do futuro como a II Idade das Trevas –, parece oferecer-nos tudo, presentear-nos com uma panóplia de informação já digerida, não precisamos de saber a sua origem, conhecer as suas fontes ou sequer determinar a sua veracidade para confiarmos nela. A informação que nos chega, vinda de todos os recantos do nosso quotidiano, é excessiva, nem sempre fidedigna e muitas vezes manipulada e racionada como as águas de uma barragem. Somos levados a acreditar que estamos a par de tudo quanto se passa à nossa volta e que nada é como dantes, quando as pessoas pouco ou nada sabiam sobre o que existia além das fronteiras das vilas e das aldeias, quando apenas se esboçavam farrapos de notícias em contornos vagos e quase místicos nos jardins das praças onde o povo se reunia. Hoje em dia não precisamos de procurar, de questionar, de analisar, em suma, não precisamos de pensar, permitimos que outros pensem por nós. A questão é simples: será que estamos mesmo a ser utilmente informados ou apenas distraídos?
O Homem sempre foi e sempre será um criador de mitos. A diferença entre nós e os nossos antepassados reside tão-só nos meios pelos quais divulgamos as nossas lendas, as maravilhosas e terríveis criações artísticas do nosso inconsciente tornado consciente pela via da imagem e da palavra.
Ao jovem de treze anos eu respondi que biologicamente, ou se preferirmos, cognitivamente, nada existe que nos dissocie das gerações que nos precederam durante séculos. A única diferença reside no esforço necessário para atingir o conhecimento. Eratóstenes pagou a um caminhante para ir de Alexandria até Siena, no Alto Egipto, para, assim, tentar calcular o perímetro da Terra com uma margem de erro mínima; nós abrimos a Internet para obtermos essa e muitas outras informações. O esforço do caminhante custou-lhe semanas por entre desertos e oásis; o nosso esforço custa-nos o tempo de um “clic”. Eratóstenes esperou igualmente semanas pela informação de que necessitava; nós impacientamo-nos quando temos de esperar mais do que cinco segundos para que o computador abra a página que pretendemos.

A gruta é um lugar para pensar. Quando nela entramos abrimos um espaço infinito em nós. É no profundo ventre ctoniano que nos reencontramos connosco próprios, com o nosso ser primevo. Quando travamos o ruído informativo com que somos bombardeados diariamente, acordamos a mente, tornamo-nos capazes de perscrutar os bastidores do visível, do audível e do tangível. Quando descemos à gruta largamos as vestes pesadas da ilusão, que nos encobrem e obscurecem a alma.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Teúda e Manteúda, Por Que Não?

E já que falamos de Carnaval, este não parece ser o único produto por nós rotulado de brasileiro e que já era nosso por direito histórico muito antes de Pedro Álvares Cabral ter chegado a Terras de Vera Cruz. Certos vocábulos que sorrateiramente foram tomando conta da nossa Língua, vindos do outro lado do oceano, não se ficam por palavras de origem africana ou ameríndia, antes pelo contrário, por vezes catalogamos como brasileirismos expressões bem portuguesas que, todavia, há muito caíram em desuso. Em abono da verdade se diga que os brasileiros souberam preservar interessantes arcaísmos que agora nos devolvem através dos media.


Não resisto em partilhar convosco esta pérola linguística cujo significado passo a citar:

“Manteúdo: [Brasil] teúdo e ~; sustentado - do lat. Manutenutu «seguro na mão».” (Dicionário de Língua Portuguesa, Porto Editora)

Contra a explicação nada tenho a dizer, mas não posso concordar com “Brasil”, muito embora saiba que o célebre romance de Jorge Amado, “Tieta do Agreste”, foi o responsável pela reintrodução desta expressão idiomática no nosso Português, ainda que o tenha feito pela vertente da comédia, o que de algum modo a descaracteriza. Digo “reintrodução”, visto a sua origem ser portuguesa. Para prová-lo, farei aqui uma transcrição abreviada de uma carta régia de perdão, concedida por D. João I a uma moçoila de Tavira que era “tida e mantida”por um padre com o qual vivera amancebada, ou seja, em “pequado mortall”:

“Dom Joham (…) Saúde! Sabede que Philipa Gonçaluez molher solteira e moradora em Tauilla nos enuiou dizer que ela esteuera por manceba teuda e manteuda de hum Afonso Aluarez clereguo de missa morador em dicta uilla (…)” (D. João I - A.N.T.T.)

Julgo que não são necessárias mais palavras para percebermos que muitas vezes importamos do estrangeiro o nosso próprio património.

Esta expressão não é única, muitas mais poderiam ser aqui referidas. É incrível que tais termos saídos dos confins da Idade Média portuguesa possam ter sobrevivido a esse verdadeiro palimpsesto cultural que é o Brasil.

Já sobre o famigerado acordo ortográfico, é melhor eu nem me pronunciar. Apenas quero deixar aqui uma pequena nota:

A discussão acerca da ortografia de palavras como “facto” e pacto”, às quais o acordo quer impor a síncope do “c”, transformando-as respectivamente em “fato” e “pato”, é anedótica, nem chega a ser triste! A confusão será instalada na escrita, já que tanto num caso como no outro as palavras não são sequer homófonas entre si, pelo menos no Português de Portugal, como poderão tornar-se homógrafas quando pronunciamos tão acentuadamente o “c”? A grafia evolui com a oralidade, não pode ser imposta por decreto! Qualquer língua viva é permeável à mudança, mas esse é um processo natural e não um assunto que possa ser debatido. Uma língua não pode ser tida como independente dos seus falantes nem manipulada de acordo com os interesses de meia dúzia de políticos. A Língua Portuguesa é de quem a fala! Recuso-me a chamar “pato” a um pacto ou “fato” a um facto, é uma ideia infeliz e de muito mau gosto.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O Triunfo do Burlesco

Não sei se por desconhecimento ou por simples teimosia em plagiar os modelos alheios, Portugal sofre daquela triste tendência para a cópia – algo que parece começar logo nos bancos da escola – e chegamos mesmo ao ponto paradoxal de copiar dos outros aquilo que nós próprios demos a conhecer ao resto do mundo e que era parte integrante da nossa tradição, bem como da cultura europeia em geral, assistindo-se hoje em dia ao regresso de antigos hábitos já por nós esquecidos.


O Carnaval traça as suas origens de forma quase tão equívoca quanto o são os apetrechos e os gestos que o acompanham. Esta festa, conforme a conhecemos actualmente, regida pela fuga ao real e pela inversão dos papéis sociais, nasceu na Europa medieval como meio de censura, nomeadamente nas regiões mediterrânicas onde esta sempre atingiu uma maior amplitude.

Desengane-se quem pensa que o Carnaval teve início com a prática da Quaresma ainda em época romana. A quarentena penitencial e posteriormente a introdução da Semana Santa apenas vieram reforçar o carácter libertador e boémio da festa que as antecede. A própria etimologia da palavra é bastante dúbia, remetendo-nos, contudo, para a expressão “carne levamen”, ou seja, para a abstinência do consumo de carne. Também a palavra “Entrudo” parece advir de “introitus”, uma introdução à Quaresma. Por outro lado, as máscaras seguem o Homem desde o Paleolítico Superior. Inicialmente detinham um cunho demarcadamente ritualista e apotropaico ligado ao animismo, como ainda hoje sucede em várias culturas. No Teatro grego, a máscara adquiriu um aspecto mais representativo do que religioso e é precisamente na vertente profana que este objecto evoluirá durante a Idade Moderna e a contemporaneidade.

Muito antes do surgimento do Cristianismo já os povos clássicos e pré-clássicos pagãos celebravam uma festa “gorda” que marcava o fim das colheitas e, portanto, um período de abundância, a qual variava de acordo com o calendário agrícola de cada região.

O Carnaval parece-se mais com um forasteiro, ora banido ora acolhido, que aprendeu a navegar na maré dos tempos, trocando de máscara consoante o cenário social em que se desenrola, ou não fosse o embuste o seu mote e a adaptabilidade a arma da sobrevivência. Durante os cerca de mil anos da Idade Média, esta festa desenvolveu-se gradualmente em diferentes moldes com um factor em comum: a sátira de costumes. Nos meios urbanos, o “julgamento das raparigas” atingia um aparato mais provocador que nos campos, onde se revestia de um ideal mais solidário. Nas cidades, tudo era alvo de uma crítica ácida que abria um espaço favorável à intriga, ao desregramento e à devassa da vida alheia tornada festa! Os charivari eram tolerados até mesmo pela Igreja, que, omissa, pouco ou nada fazia para impedir que grupos de jovens expusessem a vida dos seus concidadãos, satirizando-os através da poesia e da música burlescas. Estes episódios de escárnio muitas vezes tinham início logo no primeiro dia de Janeiro, podendo vir a ser retomados ao longo do ano, como sucedia frequentemente no mês de Agosto. Basicamente, um charivari consistia numa serenata à “vítima”, quase sempre um adúltero ou um viúvo ou viúva casados em segundas núpcias. É sabido que durante séculos a Igreja negou-se a reconhecer a sacralidade das segundas núpcias, tendo acabado por intervir neste campo, alegando que o segundo casamento era tão sagrado como o primeiro, logo não poderia ser alvo de um charivari. Aos tribunais apenas chegavam os casos que terminavam em morte, mas a pouco e pouco o Código Penal francês veio considerar estes rituais de irrisão como ilícitos. A partir do terceiro quartel do século XVIII, os julgamentos carnavalescos e o enterro do Entrudo, adquiriram contornos mais teatrais. Em Carcassone, o Antigo Regime continuava a consentir na “virgem louca do ano”, uma boneca grotesca que circulava pelas ruas daquela cidade, satirizando a pureza das donzelas, os seus trajes e linguagem recatados.

Na Idade Média, o uso de máscaras não era fundamental nesta época de diversão e de pilhagens. Os bailes carnavalescos só vieram a ser instituídos no século XV pelo Papa Paulo II, como forma de controlar a inflamação da consciência e de impedir excessos, uma vez que era de todo impossível coibir o povo de retomar antigas práticas da Roma Imperial – sinais dos tempos renascentistas. Na sua cidade natal, Veneza, os bailes atingiram um esplendor muito particular. Aí, o ruído dos charivari foi sendo substituído pelo silêncio exuberante das máscaras que cobriam de mística os rostos por detrás delas. A noite confunde e indiferencia, nela reina o caos, as fronteiras esbatem-se, os ricos fidalgos misturam-se com os pobres, os credores com os devedores, os homens com as mulheres, os soldados com os ladrões, as donzelas com as meretrizes, é o mundo dionisíaco por excelência, desse mesmo Dionísio, patrono do vinho e da rambóia, de que Nietzsche nos fala, por oposição a Apolo, deus solar cuja luz tudo individualiza e expõe.

Não é à toa que esta festa é planeada de acordo com o calendário lunar. A Páscoa ocorre no primeiro Domingo após a lua cheia que se segue ao equinócio da Primavera (21 de Março), se andarmos 47 dias para trás iremos ter à terça-feira de Carnaval, daí a mobilidade de ambas as comemorações. A quarta-feira de cinzas corresponde ao enterro do Carnaval, cinzas que simbolizam a aniquilação da carne em prol da elevação da alma – a expiação dos pecados, a purificação.

Esquecidos de tudo isto, importámos do Brasil um Carnaval que nos é estranho e que no rigor do nosso Inverno surge descontextualizado e inadaptado. A festa que teve outrora como divisa a entrega aos prazeres da vida antes da abstinência da Quaresma, vê-se assim convertida – para não dizer prostituída – num auto-flagelo do qual nem os mais intrépidos penitentes medievais se lembrariam! Em vez dos antigos bailes e concursos de máscaras vemos desfilar pelas ruas rapariguinhas a tilintar de frio, que dançam incessantemente não de alegria mas para aquecerem o corpo arrepiado pela intempérie! É de assumir que o Carnaval se superou a ele próprio na sua contínua metamorfose; é sem dúvida o burlesco a triunfar sobre os foliões, a escravizá-los na sua incultura e falta de imaginação.

Fico feliz por ver que em algumas regiões do nosso país ainda há quem celebre o Carnaval à moda de outros tempos. O Carnaval transmontano, por exemplo, conserva grande parte do sentido de originalidade de antigamente. As máscaras artesanais evocam uma memória distante, falam-nos de idades longínquas em que o Homem respeitava e temia a Natureza, tempos em que a humanidade ainda se identificava com o mundo natural do qual fazia parte. Ainda acalento a esperança de ver tradições como esta recuperarem o território que têm vindo a perder em proveito da frivolidade, mas é provável que nesse dia alguém se lembre de dizer que estamos a imitar o carnaval da Eslovénia ou de outro qualquer país europeu. Não sei o que será mais aflitivo, o nacionalismo fanático ou a ignorância intransigente.



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Nossa Senhora das Candeias (em resposta a um comentário)

Quando falamos em mitologias nada é por acaso. A semelhança existente entre o festival do Imbolc e a festa de Nossa Senhora das Candeias em Mourão, Distrito de Évora, não é de modo algum uma coincidência, mas antes o reflexo de uma origem cultural comum, o indo-europeu, assente num substrato neolítico, o que caracteriza a cultura europeia de um modo geral.
Durante a Idade Média verificou-se uma apropriação por parte do Cristianismo, em particular do Catolicismo, de locais de culto anteriormente pagãos. É usual encontrarmos monumentos megalíticos, afloramentos naturais e nascentes cristianizadas. A incorporação de elementos pagãos na mitologia cristã foi a ferramenta mais utilizada pelos paleocristãos (primeiros cristãos) no combate às velhas religiões. A receita era simples: se não podiam impedir o povo de cultuar os antigos deuses, sinalizavam os seus locais de adoração com emblemas cristãos ou instituíam oragos cujas funções eram análogas às das divindades pagãs suas antecessoras.

Conforme sucede com muitas outras tradições, também o Imbolc parte da observação da Natureza e dos seus ciclos. Na Antiguidade, o Homem explicava a maioria dos fenómenos naturais através de mitos. A religião mistérica de Elêusis, entre os antigos Gregos, socorria-se do mito de Perséfone (Proserpina para os Romanos) para explicar a alternância das estações do ano. Perséfone era filha de Deméter, deusa das colheitas, e de Zeus. Hades, deus do submundo, não resistira à beleza da jovem e decidira raptá-la enquanto esta andava sozinha pelos campos a colher flores. A planície de Ena, na Sicília, é por norma apresentada como cenário para o rapto. Zeus, que inicialmente havia sido conivente com este gesto, compadeceu-se da tristeza de Deméter e propôs a Hades devolver Perséfone à mãe. Contudo, a jovem já havia ingerido uma semente de romã que Hades lhe oferecera, ficando impedida de regressar definitivamente ao mundo dos vivos. O erro cometido por Perséfone parece ser um lugar-comum do imaginário colectivo, que nos alerta para nunca comermos nem bebermos o que quer que nos seja oferecido no “outro mundo”, sob pena de nele ficarmos retidos eternamente. Assim, Perséfone voltaria à terra dos vivos para visitar a mãe, na condição de regressar ao reino dos mortos ao fim de seis meses, repartindo a sua existência entre o Aquém e o Além até ao fim dos tempos. Deméter, feliz por estar de novo na companhia da filha, ainda que por pouco tempo, desabrocha em flor, contagiando os campos com a sua alegria. Durante a restante metade do ano, Perséfone retorna ao submundo do qual foi feita deusa. Nessa altura, Deméter inunda a terra com o seu desgosto.

Metaforicamente, Perséfone remete-nos para a semente que é lançada à terra no Outono, permanecendo na escuridão ctoniana durante todo o Inverno até acudir ao chamamento da luz no início da Primavera.

Este mito ilustra bem o facto de que estas histórias representam muito mais do que simples poesia, elas encerram ensinamentos que só aos Iniciados eram tornados explícitos.

Nossa Senhora das Candeias, Nossa Senhora da Luz, Nossa Senhora da Candelária, a hagionímica varia consoante as terras e os falares, mas há algo que lhes é transversal: a ideia de luz. Sendo o mimetismo uma parte integrante da magia religiosa, o jovem Sol é aqui representado pela chama tímida acesa no Imbolc quando os dias caminham para o equinócio da Primavera e o fotoperíodo aumenta progressivamente até culminar num Sol adulto, numa fogueira exuberante ateada no dia mais longo do ano, a 21 de Junho, no solstício de Verão.

O conceito que subjaz à festa de Nossa Senhora das candeias é, em todo o caso, o mesmo que transformou o Imbolc, em honra da deusa Brighid, em Candlemas (Candelária), em hora de Santa Brígida, um banquete de luz em homenagem ao Sol que trará nova vida à terra.