segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010


Há pouco tempo, um jovem de treze anos perguntou-me se antigamente as pessoas eram mais inteligentes e mais cultas do que as de hoje em dia. A pergunta não me surpreendeu, uma vez que eu própria já a havia feito vezes sem conta quando tinha a idade dele.
A época que estamos a atravessar – e que muito seguramente será considerada pelos historiadores do futuro como a II Idade das Trevas –, parece oferecer-nos tudo, presentear-nos com uma panóplia de informação já digerida, não precisamos de saber a sua origem, conhecer as suas fontes ou sequer determinar a sua veracidade para confiarmos nela. A informação que nos chega, vinda de todos os recantos do nosso quotidiano, é excessiva, nem sempre fidedigna e muitas vezes manipulada e racionada como as águas de uma barragem. Somos levados a acreditar que estamos a par de tudo quanto se passa à nossa volta e que nada é como dantes, quando as pessoas pouco ou nada sabiam sobre o que existia além das fronteiras das vilas e das aldeias, quando apenas se esboçavam farrapos de notícias em contornos vagos e quase místicos nos jardins das praças onde o povo se reunia. Hoje em dia não precisamos de procurar, de questionar, de analisar, em suma, não precisamos de pensar, permitimos que outros pensem por nós. A questão é simples: será que estamos mesmo a ser utilmente informados ou apenas distraídos?
O Homem sempre foi e sempre será um criador de mitos. A diferença entre nós e os nossos antepassados reside tão-só nos meios pelos quais divulgamos as nossas lendas, as maravilhosas e terríveis criações artísticas do nosso inconsciente tornado consciente pela via da imagem e da palavra.
Ao jovem de treze anos eu respondi que biologicamente, ou se preferirmos, cognitivamente, nada existe que nos dissocie das gerações que nos precederam durante séculos. A única diferença reside no esforço necessário para atingir o conhecimento. Eratóstenes pagou a um caminhante para ir de Alexandria até Siena, no Alto Egipto, para, assim, tentar calcular o perímetro da Terra com uma margem de erro mínima; nós abrimos a Internet para obtermos essa e muitas outras informações. O esforço do caminhante custou-lhe semanas por entre desertos e oásis; o nosso esforço custa-nos o tempo de um “clic”. Eratóstenes esperou igualmente semanas pela informação de que necessitava; nós impacientamo-nos quando temos de esperar mais do que cinco segundos para que o computador abra a página que pretendemos.

A gruta é um lugar para pensar. Quando nela entramos abrimos um espaço infinito em nós. É no profundo ventre ctoniano que nos reencontramos connosco próprios, com o nosso ser primevo. Quando travamos o ruído informativo com que somos bombardeados diariamente, acordamos a mente, tornamo-nos capazes de perscrutar os bastidores do visível, do audível e do tangível. Quando descemos à gruta largamos as vestes pesadas da ilusão, que nos encobrem e obscurecem a alma.

1 comentários:

Diabba disse...

Estou farta de dizer isso, estamos a criar gerações de gente tropega de mente.
E neste mundo de ignorantes, quem tiver o mínimo de iniciativa, para ir além do click, será rei!

enxofre