terça-feira, 30 de março de 2010

Do Povoado do Zambujal à Ditadura do Proletariado - Marx no Calcolítico

Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência.
(Karl Marx)

“Marxismo”, “Marxismo-Leninismo”, “Bolchevismo”, “Socialismo” ou “Comunismo” são termos fortemente arraigados na nossa vida e na nossa memória histórica recente. O nome de Marx ainda ressoa pelos quatro cantos de um mundo sôfrego de liberdade e de justiça social, sedento de um sistema político que assente num ideário meritocrático e incorruptível, numa panaceia política que supra as incorrecções de uma Democracia doente e demasiado permissiva, particularmente quando o que está em jogo é o factor dinheiro.
O Capital, escrito por Karl Marx e editado por Hegel após 1883, insurge-se contra a tirania do poder monetário que coloca os mais pobres na dependência dos mais ricos. A obra de Marx pode ser traduzida numa única pergunta: Por que razão se submetem os operários aos desmandos de meia dúzia de senhores, quando eles mesmos produzem o seu próprio sustento e se encontram em supremacia numérica?
Muitas vezes acusado de defender uma perspectiva a-histórica e materialista da humanidade, Marx assumiu a luta de classes como motriz da evolução sócio-económica, algo que nenhum outro pensador político tinha tido coragem de admitir tão declaradamente. Os detentores do capital, pouco ou nada produzem, são inaptos para se auto-sustentarem. A construção social não é mais do que uma teia intrincada que subverte continuamente os valores morais a favor da inépcia. O capitalista limita-se a urdi-la e a esperar pela abertura do banquete que não tardará, já que nenhum outro caminho resta a quem nada tem de seu.
Passaram-se pouco mais de cem anos desde Marx até aos nossos dias. Duas guerras mundiais ficaram pelo caminho, fora todas as outras, desde as mais frias às mais reactivas; ditaduras foram impostas e abolidas; muros foram erguidos e derrubados; impérios cresceram e soçobraram; novas nações emergiram dos escombros de velhas; muitas Primaveras floriram em Praga desde então… Com o tempo, os novos conceitos amontoaram-se nas nossas gavetas e prateleiras, invadiram os livros da escola, os jornais, as cabeças, mas com eles nada foi criado que já não tivesse sido experimentado antes.
Marx era, acima de tudo, um historiador. Mas conheceria ele o Povoado do Zambujal? Certamente que não! E, ainda assim, escreveu a crónica das suas gentes. Aplicar Marx ao Calcolítico Médio, demonstra até que ponto evoluímos enquanto seres socais e políticos: absolutamente nada!
Localizado numa cumeada escarpada perto do rio Sizandro, o povoado do Zambujal tem vindo a ser estudado desde 1964 e constitui-se tão-só como um exemplo extensível aos demais povoados fortificados da Idade do Cobre (c. 3000 a. C.). Este modelo de povoamento surge na sequência do incremento da agricultura e da pastorícia durante o Neolítico Final e da decorrente acumulação de excedentes alimentares. Quem detém uma riqueza, vê-se compelido a travar numerosas batalhas para a defender, o mesmo será dizer que a opulência é carcereira da liberdade.
A investigação arqueológica levou à conclusão de que a cidadela central, o último e inexpugnável baluarte do povoado, foi o produto de aproximadamente meio milénio de sucessivas ampliações. Aí morava a elite, cada vez mais afastada da população trabalhadora. Distinguem-se quatro fases principais de construção, a penúltima das quais apela precisamente à existência de um enorme fosso social aberto entre os governantes e o povo, patente não apenas na espessura da muralha central, mas sobretudo no facto de ter sido criada na cidadela uma saída directa para o exterior, o que desobrigava a elite dirigente de passar pelo povo que habitava o interior das restantes linhas de muralha. Esta situação de conflito social, leva-nos a pensar – por comparação com outras sociedades coevas e ulteriores – que os governantes calcolíticos retinham o sobreproduto económico, impedindo os seus produtores de aceder a ele. A cupidez de uns e a subserviência de outros, somaram-se às alterações climatéricas e ao esgotamento dos solos. É fácil vislumbrar os comportamentos civis que daqui advieram, basta, para isso, remetermo-nos à nossa actualidade.
A partir do terceiro milénio a. C., estes altivos burgos foram progressivamente abandonados. Os camponeses, que neles trabalhavam para alimentarem um sistema político desgastante, libertaram-se desta malha social opressora e formaram pequenos casais agrícolas independentes. Os membros das elites ter-se-ão dispersado ou sucumbido à sua própria infrutuosidade, pois ninguém come ouro. No Calcolítico Final ainda havia quem habitasse as ruínas destes lugares assombrados por um passado de desigualdade e corrupção.
Marx estava certo. Qual o destino da elite sem o povo para a alimentar? Os camponeses do Calcolítico já o haviam demonstrado. Nunca a ditadura do proletariado havia sido tão notoriamente levada a peito. Mas as palavras de Marx nunca foram ouvidas, antes pelo contrário, foram desvirtuadas por aqueles que se diziam seus seguidores. Marx era um ideólogo, um manifesto sucessor de Thomas More e, por que não dizer, um sonhador, não um político intransigente capaz de tornar a solução parte do problema. A História pulula de idênticas deturpações ideológicas, desde as parábolas de Jesus Cristo até às utopias dos fundadores das instituições e partidos políticos nossos contemporâneos. Até o Mein Kampf de Hitler conseguiu reunir algum consenso em torno dos ideais que propunha!
Se no espírito encarnamos a coerência e a virtude, no corpo encobrimos o tumulto e a demência, prova de que somos muito bons a pensar e muito maus a agir. Da teoria à prática abre-se uma vastidão de possibilidades, nunca chegaremos ao fim desta estrada por tantos filósofos percorrida.

Fotografia do Povoado do Zambujal retirada de fotoarchaeology.blogspot.com

2 comentários:

jagga nathan простй disse...

Marxismo”, “Marxismo-Leninismo”, “Bolchevismo”, “Socialismo” ou “Comunismo” são termos fortemente arraigados na nossa vida e na nossa memória histórica recente. O nome de Marx ainda ressoa pelos quatro cantos de um mundo sôfrego de liberdade e de justiça social, sedento de um sistema político que assente num ideário meritocrático e incorruptível, numa panaceia política
пешком до большого чистого озера
por estas razões prefiro um mundo sôfrego
onde o homem escraviza o homem
do que um sistema marxista em que acontece o reverso
ou o inverso

e se pensarmos bem tirando as farditas de pioneiro e os lençinhos amarelos
(leva ç?)
da bielorrus to Лепота

para longe dos sistemas do homem

a anarquia também num é gran chose mais cést la vie
Не то что бетонные джунгли Москвы

dos seus sequazes e algozes passados,presentes e futuros....
drasesho
cidadela existencia

Leda Dylluan disse...

É verdade, não existe um sistema político perfeito...