sábado, 20 de março de 2010

Equação Emocional

Lembro-me de ter questionado a minha professora de História do 9º ano, acerca das causas que levaram ao crash da bolsa de Nova Iorque em 1929. A resposta foi insatisfatória mas consistente: os economistas não percebiam o que exactamente havia conduzido a tal fenómeno, por outras palavras, sabia-se como tinha acontecido, mas não o que o motivara.
Sempre que ouvimos falar das tragédias do passado ficamos apreensivos quanto ao futuro. A década que se seguiu ao crash trouxe desemprego em massa, carestia de vida e fome, flagelos que assolaram a sociedade ocidental por esta mesma ordem de acontecimentos, num efeito dominó. Ao entender, talvez, esse meu drama interior, a minha professora sossegou-me acrescentado que hoje em dia, entenda-se, há 14 anos atrás, o sistema económico havia sido aperfeiçoado para obstar a que um novo crash viesse a ocorrer e que, portanto, tal fenómeno não voltaria a dar-se. Só me recordo de ter pensado que se os próprios economistas não tinham conseguido prever o crash, com excepção de uma ou outra voz de Cassandra que ter-se-á manifestado naquele tempo, seria mais do que certo que algo do mesmo género voltasse a acontecer. Na verdade, assim como eu me interessei por perceber os mecanismos conducentes a esse facto histórico, também os historiadores e até psicanalistas e sociólogos se debruçaram sobre o assunto, chegando à mesma conclusão de que não era apenas possível haver novamente um crash bolsista, como este estava iminente.
Cálculos? Não, não fiz cálculos, nem eu nem os investigadores da História e da mente humana. A Economia não é matemática, é emoção pura! Enquanto os economistas não perceberem esta tão humana circunstância, muitos outros crashes suceder-se-ão. Quando as acções de uma dada empresa entram em queda, os accionistas em vez de começarem a comprá-las, como seria a atitude mais lógica, apressam-se a vendê-las e vice-versa, perdendo fortunas na roleta do sistema nervoso. Isto, por si só, demonstra até que ponto a Economia é um sistema irracional, assente na mais pura cadeia de impulsos psicológicos estimulados pelo meio.
Era eu ainda criança quando disse à minha mãe que um dia as casas seriam quase oferecidas, isto porque via à minha volta tanta gente sem ter onde morar e tantas casas ao abandono, não apenas casas antiquíssimas e belas mas também casas novas que ninguém comprava devido aos elevados preços praticados no mercado imobiliário. Em Portugal não chegámos ao ponto de comprar casas pelo preço de um cacho de bananas do tempo das colónias, mas na nossa vizinha Espanha levou-se mesmo ao pé da letra a célebre máxima de supermercado: “pague uma e leve duas”! Também isto, nenhum economista munido das suas matemáticas conseguiu prever.
Se julgamos que nos libertamos da emoção ao reduzir a nossa existência a uma fria equação matemática, plena de lógica e de razão, estamos muito enganados, e mais ainda quando o assunto é Economia. Há e sempre haverá crashes porque o homem tem fobia do real. O de 1929, tal como o que testemunhámos há dois anos, teve simplesmente a ver com o facto de o Homem dito “ocidental” ter deixado de pensar em bens de consumo concretos, com os cereais, o leite, a carne, os tijolos, as lãs, etc., para pensar exclusivamente em números expressos em acções, o mesmo é dizer, abstractizou a própria comida! Se havia uma tonelada de farinha, continuou a haver essa mesma tonelada. A crise económica de hoje, tal como o foi no passado, é mera patologia psicológica. O que realmente existiu, e existe, é uma crise financeira que acabou por contagiar a produção a todos os níveis. Trata-se, assim, de um vírus fictício que ataca um sistema impalpável, não o nosso prato!
Não sei se já vos ocorreu, mas sempre que usamos expressões tais como “bolsa de valores”, “dinheiro”, Ministério da Justiça”, “fronteiras”, entre milhares de tantas outras, não nos estamos a referir ao real perceptível, pois nada disto existe na Natureza, fomos nós, seres humanos, que criámos todos esses conceitos por temermos a realidade. Vivemos no Mundo Inteligível de Platão, enquanto o nosso corpo deambula pela esfera do Sensível e é confrontado com necessidades materiais. A dicotomia mente/corpo é a grande padroeira da angústia humana. Elevámos à nossa volta muros de fantasia para nos defendermos do espectro do real e afugentarmos a Natureza de onde viemos e com a qual já não sabemos lidar.
Não entendam este post como um ataque directo e deliberado a toda a Matemática, ainda que esta seja a maior das divagações possíveis, mas apenas à matemática inútil que se impõe entre nós e o real, reduzindo as nossas hipóteses de intuir o mundo e a sua espontaneidade. Ao complexificarmos cada vez mais o nosso pensamento, perdemos a capacidade de perceber as leis da simplicidade, as mesmas que outrora presidiram à construção das pirâmides egípcias, monumentos geniais cujo surgimento só pode hoje ser explicado com recurso a seres extraterrestres! As pontes romanas sobrevivem ao tempo porque a ele pertencem, suportam destemidamente as agressões da Natureza porque são unívocas com ela, enquanto as modernas obras de engenharia colapsam perante forças que as suas matemáticas ignoram.
Perdemo-nos de nós mesmos ao tentarmos domesticar o indomável, o nosso próprio espírito pleno de anseios e de ilusões. O simbolismo é a nossa glória tornada derrota pela desonra da ambição.
Quando tenho diante de mim um quadro escrito de um lado ao outro com a pomposa resolução de uma equação matemática penso: “Ainda bem que há quem pegue numa enxada para cultivar a terra, ou morreríamos todos de fome!”


2 comentários:

continuando assim... disse...

Convite
O livro "Continuando assim...", foi maltratado...

Resolvi por isso, e porque tanta gente não encontra o livro onde deveria estar (nas livrarias), recontar a história
Lá no …. Continuando assim…

Vamos em metade da história, o livro reescrito, não está igual (nem poderia!) ao que foi editado.
Obrigada a todos os que vão seguindo ( pois só assim vale a pena).
E já lá vão mais de 200 comentários de pessoas tão diferentes umas das outras…
Um obrigada especial a quem ainda não conhece, e chega de novo

Mais uma reflexão em relação a todo este assunto, e um conselho, se é que me é permitido:

--- quando vos pedirem dinheiro para editar as vossas palavras, simplesmente digam que não ---
BJ
Teresa

Leda Dylluan disse...

Teresa, obrigada por ter partilhado comigo o "Continuando Assim...". O conselho que aqui me deixou será bem guardado. Bjs