quinta-feira, 11 de março de 2010

As Três Deusas

Ora remetidas para segundo plano, ora entronizadas como se de seres sobrenaturais se tratassem, as mulheres vêem permanentemente a sua esfera de acção social evoluir e nem sempre no sentido desejado. Definir os papéis sociais masculinos é sobremodo fácil, já o mesmo não pode ser dito em relação aos da Mulher. Poderíamos resumir a História da Mulher através da psicanálise freudiana e reconstruí-la com base nos ideais fantasmáticos masculinas que levam à apropriação de estatutos de parte a parte e a guerras identitárias insolúveis, mas tal não passaria de uma tentativa ingénua de omitir toda e qualquer responsabilidade da Mulher e subtrair-lhe, inclusive, o usufruto dos seus próprios erros.
Submissa por vezes, audaz por outras, a Mulher social desdobra-se em incontáveis facetas. Diante de Páris, herói troiano, perfilam-se as três deusas. O jovem segura na mão uma maçã e todo o universo de representações simbólicas que esse fruto carrega. Ele deverá oferecê-la à sua eleita e da sua escolha dependerá o futuro de Tróia. Avança Artémis, virgem deusa da caça, feiticeira lunar, grande Mãe, mas os seus estandartes não parecem suficientes para induzir Páris a atribuir-lhe o fruto vermelho, o seu coração. É a vez de Atena, forte, poderosa, sábia, matrona da guerra e do conhecimento, mas nem toda a sabedoria da deusa a tornam merecedora. Por fim e em silêncio, desfila Afrodite, deusa da beleza feminina e do amor. Num gesto delicado e despretensioso arrebata o coração do herói ao desprender as suas vestes diáfanas que deslizam sem ruído para o chão. A nudez é tudo quanto a deusa precisa para o convencer. A ela, Páris entrega a maçã irreflectidamente, impulso que levaria ao colapso de Tróia.
Afrodite personifica a mulher-corpo, a mulher sem voz, sem pensamento, o corpo animal, como diria Nabokov.
Encontramos na nossa sociedade genuínas representantes destes três estados femininos, destas três deusas, arquétipos do pensamento. Artémis é a mulher misteriosa, a guardiã do lar, a mãe que cuida e alimenta, a leoa que caça para os filhos e que os defende com a própria vida. Atena é a mulher que triunfa num mundo exclusivamente masculino, é a guerreira por excelência, a desbravadora. Se pensamos encontrá-la no topo das hierarquias empresariais, então teremos uma árdua tarefa pela frente, o que não invalida que sejamos, até certo ponto, bem sucedidos, já que algumas triunfam por seus méritos intelectuais. Mas não é no topo seja do que for que as devemos procurar, do mesmo modo que também não devemos buscar Artémis no matrimónio. Estas mulheres com a sua sabedoria e inteligência, com a sua coragem e determinação, com a sua alma, nada podem contra Afrodite, contra o corpo-objecto que sem uma palavra, um argumento sequer, basta-lhe tirar a roupa para vencer onde nenhuma outra vencerá!
A culpa é das mulheres? Não sejamos simplórios! Os comportamentos são sempre adaptáveis ao meio e funcionam como as leis do mercado, ou seja, baseados na oferta e na procura. Enquanto os homens não alterarem a sua forma de ver a mulher, esta terá sempre a infeliz tendência de usar o corpo em detrimento do espírito. Afinal, pensar para quê, argumentar em que sentido, defender que ideias, quando basta desprender um alfinete e deixar que a túnica se desdobre em pregas de silêncio? Recorrer às momices, aos cruzares de pernas, aos decotes generosos e a tudo o mais que a guerra pela ascensão social permita, é uma forma de sobrevivência como qualquer outra!
Em acréscimo, a inteligência feminina é dissuasora ou não vivêssemos nós no império das hormonas e não no da razão, como nos querem convencer. Plínio, ao referir-se a Cleópatra, disse que a sua beleza podia ser comparada à de qualquer outra mulher. Ora aqui temos um Homo Humanus que não se deixa condicionar pela sua própria biologia e que é capaz de ver alma onde outros só vêem corpo. Podemos concluir que às mulheres inteligentes devemos chamar “bonitas”, já que foi a beleza e não a inteligência que imortalizou a última rainha das Duas Terras, cujo maior desgosto não foi a morte do amado Júlio César, mas o primeiro incêndio que devastou a Biblioteca de Alexandria. De resto, é esta mesma biblioteca que a liga pelo fio do pensamento à história de uma outra mulher, Hipátia.

A Última Bibliotecária

A morte de Hipátia, famosa bibliotecária de Alexandria, filha do neoplatónico Teon e sua sucessora, mostra até que ponto a inteligência e o poder femininos podem tornar-se incómodos para os homens, sobretudo quando tais homens acreditam que a mulher descende de Eva e é, por assim dizer, a eterna tentadora do mundo.
Hipátia foi uma das mulheres mais inteligentes – ou será que devo dizer bonita? – que a humanidade produziu. Matemática, astrónoma, filósofa, oradora, historiadora, artista, poetisa, teóloga… Enumerar apenas alguns dos seus predicados intelectuais seria diminuí-la, pelo que não alargarei mais esta lista de saberes, pois para a completar devidamente seriam necessárias muitas páginas.
Cirilo, bispo de Alexandria, compactuou com o seu assassinato em Março do ano 415, apoiado por uma facção cristã intransigente que se opunha ao moderado Orestes, prefeito daquela cidade e amigo de Hipátia. A morte, ainda controversa, da bibliotecária foi brutal: torturada, esquartejada e queimada, até a carne lhe foi separada dos ossos! A biblioteca foi incendiada pela quarta e última vez, garantia de que o seu pensamento seria banido de entre os vivos, tal era o ódio que este santo homem e seus seguidores nutriam pela última guardiã da sabedoria humana. Cirilo foi canonizado, dado o carácter íntegro e inexorável com que perseguia e punia os que discordavam da sua forma torpe de pensar. Hoje dispõe de um lugar cativo no panteão demonológico da Igreja Católica, exímia na arte de misturar todo o género de anorexias espirituais com as mais sublimes e humildes das almas verdadeiramente santas, pelo que devemos tratá-lo por São, São Cirilo.
Com a morte de Hipátia calaram-se as vozes de Aristarco de Samos, de Eratóstenes e de tantos outros que haviam votado as suas vidas ao esclarecimento da humanidade doente. A Terra, agora quadrada, interrompeu o seu movimento em torno do Sol e, a pouco e pouco, a Filosofia transformou-se em Escolástica e a Ciência em superstição. A ignorância foi nesse tempo, assim como hoje, um cálice do mais deleitoso veneno servido copiosamente ao Homem. Depois de Hipátia e do último suspiro do maior repositório do conhecimento humano, a Biblioteca de Alexandria, só o obscurantismo.

Ainda bem que existiram e existem Mulheres belas como Hipátia ou eu já não seria capaz de sair à rua de cabeça erguida! 

Imagem: Antoine Watteau "A Decisão de Páris", Louvre, c. 1720, óleo sobre madeira.

3 comentários:

O Idiota disse...

Olá.
Peço desculpa pela intromissão.

Venho convidá-lo(a) a acompanhar as histórias d'O Idiota.

Humor/Sarcasmo/Entretenimento e boa disposição:)

Obrigado.
Miguel

Leda Dylluan disse...

Já sou seguidora :)

exilium disse...

Olá chérie =)
como adoro o teu blog! é uma lufada de ar fresco na minha cabeça, já tão cheia das mentiras e tretas deste nosso mundo.
acho que devias escrever ainda mais no teu blog! tu iluminas as pessoas com a tua sabedoria =)
eu diria que tu és a sucessora de hipatia =)

ah, é verdade, não me esqueci dos teus anos =) ehehe
para quando o nosso ´cafézinho?

bjnhs fofos e um abraço cheio de saudades =)

patrícia