segunda-feira, 8 de março de 2010

A Precessão dos Equinócios

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Da comparação de quase todas as estrelas estudadas por ele, Hiparco deduz que todas estão dotadas de um movimento semelhante, que se desenvolve segundo a ordem dos signos zodiacais. (Ptolomeu, Mathemetike Syntasis, Livro II)

Conhecem o vosso signo astrológico? Eu tenho sérias dúvidas quanto ao meu.
Ninguém sabe ao certo quando é que a Astrologia começou a romper a esfera da pura superstição – se bem que nunca a abandonou totalmente – e a formar-se enquanto área científica, mas é evidente a perseguição à qual foi sujeita por parte da Igreja Católica, muito embora reis, príncipes e até sacerdotes tenham continuado a recorrer a ela, sobretudo durante a Idade Média, de todas as épocas a maior supressora dos direitos individuais. Ainda que nenhuma religião e seus dogmas a tenham impedido de laborar secretamente no espírito dos homens atormentados pelo desconhecido e tementes das forças transcendentais que a Natureza abriga, a Astrologia viu-se diminuída e votada a uma existência sombria que a impediu de prosperar durante séculos.
Hiparco de Niceia, nascido nessa mesma cidade da Bitínia (Ásia Menor) que lhe deu nome, no ano 194 a. C., apoiando-se no modelo geocêntrico proposto por Eudóxio de Cnido, por oposição ao pensamento heliocêntrico defendido por Aristarco, desenvolveu uma nova teoria do movimento solar recorrendo à solução do “ponto excêntrico”. Não obstante ter-se baseado num modelo que hoje sabemos estar incorrecto, Hiparco constatou que mesmo as estrelas que consideramos fixas (constelações que orbitam em torno da Ursa Menor e da Estrela Polar e por isso designadas de circumpolares e visíveis durante todo o ano) efectuam algum tipo de movimento. As suas metódicas observações ao longo dos anos levaram-no a concluir que os equinócios se deslocam sobre a eclíptica (linha do percurso solar na abóbada celeste) à razão de 1/100 de grau por ano e que esse movimento ocorre em torno dos pólos da mesma, definindo, a partir desta descoberta, as noções de “ano sideral” e de “ano trópico”.            
Nos Equinócios (Primavera e Outono) o Sol encontra-se no “ponto Gamma ”, ou seja, no ponto onde a eclíptica cruza o equador terrestre. Nos Solstícios (Verão e Inverno) o Sol desloca-se 23,5o para norte ou 23,5o para sul em relação ao plano equatorial.
Os planetas não estão fixos no seu movimento aparente, movendo-se de acordo com as suas órbitas em torno da faixa zodiacal que acompanha a eclíptica. Há mais de 2000 anos essa “faixa” foi dividida em 12 partes ou “caixas”, cada uma com trinta graus. Ainda nessa época foi-lhes atribuído o nome da constelação que continham e não mais foram actualizadas.
Por volta do ano 128 a.C., Hiparco escreveu “Sobre a Posição dos Pontos de Equinócio e de Solstício”, obra em que compara as suas observações com as de Timocárides (295 a.C.), referindo que a posição de Spica (constelação de Virgem) se havia entretanto deslocado cerca de dois graus de longitude. É necessário salientar o génio matemático de Hiparco, inventor e construtor de diversos instrumentos, entre os quais o bastão de Tiago (dioptra) e a esfera armilar que permite medir a longitude e a latitude de um corpo celeste, para além de ter elaborado um catálogo de 850 estrelas fixas, número que Ptolomeu, seu sucessor, elevou mais tarde a 1025.
Ao fenómeno de deslocamento do pólo celeste em relação ao plano da eclíptica deu Hiparco o nome de “Precessão dos Equinócios”. Este fenómeno é igualmente responsável pela determinação da estrela polar. Actualmente, chamamos “polar” à estrela alfa da constelação da Ursa Menor, por esta se achar muito próxima do ponto de prolongamento do eixo da terra. Tempos houve em que esse papel coube a outras estrelas. Há cerca de 4700 anos, a estrela alfa da constelação de Dragão, Thuban, era a estrela polar. Num futuro ainda distante, a honra caberá a Vega, estrela alfa da constelação de Lira. Não é à toa que Plínio o Velho, na sua obra “De Rerum Naturae” (“Acerca da Natureza das Coisas”), se expressou a propósito do trabalho de Hiparco como algo “que teria levado um deus a retroceder”.

Uma pessoa nascida em finais de Março, princípios de Abril não é, como há 2000 anos atrás, do signo de Carneiro, mas sim de Peixes, e isto verifica-se com os demais signos ao longo do ano. Julgo que o desfasamento seja de apenas poucos dias, mas o suficiente para nos induzir em erro. Não sou especialista no assunto, mas julgo que já era tempo de haver uma actualização.   
Fica aqui uma última ressalva. Há algum tempo, uma astróloga explicou-me que o nosso verdadeiro signo pode não corresponder ao da época do ano em que nascemos. O nosso mapa astral encontra-se dividido em diversas casas correspondentes às diferentes áreas da nossa vida: família, dinheiro, trabalho, etc. Na casa do ego acha-se discriminado o signo zodiacal que rege a nossa personalidade. Eu, que nasci em Abril, vim a descobrir que sou sagitariana. Nunca prestei muita atenção ou nutri qualquer simpatia por essa dita “ciência”, mas tudo muda quando conversamos com alguém que de facto percebe do assunto. E é na nossa capacidade de mudar de opinião perante os argumentos de outros que vive a engrenagem da Ciência.

Esquema do Ponto vernal γ - retirado do Planetário Calouste Gulbenkian.

2 comentários:

macaco do 1ºD disse...

Estimado,

É um prazer contactá-lo e em primeiro lugar elogiar pelo bom blog que expõe a todos nós, leitores.

Envio este coment para anunciar a abertura de um novo blog, o "Macaquinhos no Sótão". http://osmacacosdosotao.blogspot.com/

Um blog pensado há muito, mas que só agora decidi abrir.

Gostaria muito de contar com a sua ajuda na promoção deste blog, colocando o link se possivel.

Como é claro, retribuirei sem piscar os olhos em colocar o seu link na minha página!

Espero uma resposta sua.

Leda Dylluan disse...

Com todo o gosto! Adicioná-lo-ei hoje mesmo à minha galeria de blogs. Obrigada pelo seu contacto!