sábado, 19 de fevereiro de 2011

Orpheu, O Homem contra si próprio.

É no quarto Livro das Geórgicas de Virgílio que encontramos uma das versões mais acabadas deste mito de amor da Antiguidade que, pela sua natureza iniciática, havia já sido anteriormente integrado nos Mistérios de Elêusis, seita que se propunha fornecer ao Homem todas as indicações a respeito da jornada dos mortos e sobre o modo como estes deveriam comportar-se perante as tropelias do submundo, a fim de alcançarem a paz nos campos Elísios.

Filho de um rei da Trácia e de Calíope, musa da poesia lírica, Orpheu era um grande poeta e um músico de excelência. Fazia-se acompanhar por uma lira que lhe havia sido oferecida pelo deus Apolo e que tinha o poder de encantar todos os seres. As feras tornavam-se dóceis ao som da sua melodiosa voz e até as pedras se inflamavam de vida ao escutá-lo. Tudo parecia correr-lhe bem, até ao dia em que a sua jovem esposa, a dríade Eurídice, é morta por uma serpente.
Destroçado pela perda, Orpheu mune-se da sua arte e empreende uma extraordinária catábase, descida ao plano dos mortos, com o objectivo de trazer de volta a sua amada.
Já diante de Hades e de Perséfone, entoa uma sublime canção de amor, demonstrando estar determinado a não abandonar o reino das sombras sem Eurídice. À beleza de uma tal ária, nem os mais severos espíritos resistem e, quando até os condenados choram perante tamanha mestria, os deuses anuem ao seu pedido, mas sob uma condição: o poeta deveria conduzir a esposa apenas com ligeiros harpejos da sua lira, sem nunca ceder à tentação de olhar para trás para verificar a sua presença, até que ambos alcançassem novamente a luz. Orpheu aceita esta imposição e guia Eurídice através das sendas escuras dos patamares infernais. Já perto da superfície, o herói é tomado de assalto por uma vontade irresistível de rever a mulher que silenciosamente caminharia atrás de si. Deveria ele ter confiado na palavra dos deuses? A dúvida adensa-se ao longo do percurso e, quase no último instante em que voltariam ao mundo dos vivos, o poeta sucumbe à tentação e volta-se… apenas para ver o espectro da bela Eurídice dissipar-se na obscuridade uma vez mais.
Orpheu quebrara a regra imposta pelos deuses. Com um gesto irreflectido, pusera em causa toda a sua demanda.
O mito narra, ainda, que Orpheu regressou à Trácia e manteve-se fiel à memória da falecida esposa, algo que lhe granjeou a ira das Bacantes, seguidoras do deus Dionísio, que disputavam entre si a sua atenção. Num acesso de loucura, estes seres selváticos mataram-no e desmembraram-no, atirando a sua cabeça ao rio Hebrus. Ainda assim, o herói não foi silenciado, já que a sua cabeça foi ter à ilha de Lesbos, onde foi resgatada e guardada numa gruta, tendo a partir de então servido de oráculo a todos os que a quisessem consultar. Orpheu era agora conhecedor dos segredos dos mortos e das passagens infernais; era um iniciado.

Talvez se este mito envolvesse uma luta épica entre um herói e um dragão, o desfecho se revelasse mais feliz, mas o que os deuses do submundo propuseram a Orpheu vai muito além da força física, do destemor animal ou da astúcia. É na luta contra si próprio, contra os seus instintos mais primários, que o Homem perde a batalha. Poderiam os deuses ter-lhe pedido que defrontasse um gigante num combate corpo-a-corpo ou que enfeitiçasse uma serpente maligna apenas com uma nota musical extraída da sua lira mágica, mas não, Hades e Perséfone apenas lhe exigiram fé, confiança e controlo sobre as emoções. Contudo, o poeta cede à curiosidade, à tentação e à descrença. O mito de Orpheu surge-nos como testemunho da maior fraqueza humana: a dúvida.
A dúvida, esse pântano movediço, nasce da ignorância e embrenha-se pela rota sinuosa da ambição. Se por um lado é a energia que impulsiona o Homem nas suas descobertas, é por outro a mão invisível que o derruba, o olho omnipresente que o atormenta. A verdade que buscamos encontra-se dentro e não fora de nós. Não é a perguntar por ela aos outros que a encontraremos, como quem procura a Lua dentro de uma gaveta.
Empreender a catábase, é descer a escada escura e escorregadia que conduz ao nosso inconsciente, ao nosso arcano transcendental, a esse lugar misterioso onde vivem os nossos mortos, os espectros de todos os nossos “eus”.
A dúvida germina no medo e nas paixões com que o mundo de aquém nos acena. Ela é a escória que resulta do encontro entre o fascínio e a insciência, qual amontoado de cinzas no crisol de um alquimista. Tomamo-la por auto-observação, quando nada é senão ruído mental fixado ao mundo sensível por ingerência dos sentidos.
Orpheu não é uma personagem mitológica, “Orpheu” somos nós em busca da nossa alma, da nossa verdadeira essência. É por ela que descemos ao submundo, sondamos as trevas com a nossa humilde candeia, com a nossa lira, com a acuidade do nosso parco entendimento.
A jornada está repleta de perigos, verdades inconcebíveis que nos atordoam e cegam. Somos Sémele diante de Zeus.
O mito decapita o herói, mas curiosamente não lhe rouba a palavra, não o cala como seria de esperar, antes pelo contrário, atribui-lhe um novo estatuto, o de oráculo. A catábase não fora, afinal, em vão, Orpheu não tem o destino dos heróis no panteão dos feitos efémeros, é-lhe, antes, conferida a serenidade dos sábios e dos santos. Ao deixar-se levar até onde os deuses o queriam, o poeta demonstra que aprendera com a má experiência. Cessam as perguntas, as dúvidas extinguem-se, sobra a aceitação. O herói triunfa por fim, não pela força do corpo, mas pela entrega do espírito.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A Estrela de Bethleém

E tendo eles ouvido o rei [Herodes], partiram; e eis que a estrela, a mesma que haviam visto no Oriente, ia adiante deles, até que, chegando, se deteve sobre o lugar onde estava o menino.

Mateus 2, 9


Encontrei recentemente uma dessas revistas de propaganda religiosa que denunciava sem quaisquer reservas a origem demoníaca da estrela que terá guiado os Reis Magos até Bethleém, onde se encontrava o menino Jesus, que a essa altura deveria ter já cerca de um ou dois anos, uma vez que Herodes, após falar com os Magos, ordenou a morte de todos os rapazes dessas idades, pois entre eles estaria o tão esperado “rei dos judeus”.

A dita revista justificava o carácter nefasto da estrela, afirmando que um tal fenómeno só poderia interessar a quem queria fazer mal ao Messias, uma vez que assinalava o local exacto onde este poderia ser encontrado. Este raciocínio tinha por objectivo, segundo pude perceber, condenar o uso de uma estrela ou cometa como decoração natalícia. Mas terá a estrela ou cometa sido um fenómeno real ou não terá passado de um mero recurso literário, já que apenas S. Mateus a menciona, empolado pelo fértil imaginário medieval?

A Bíblia documenta dois acontecimentos que podem ser usados como balizas cronológicas para datação do nascimento de Jesus Cristo. O primeiro corresponde ao recenseamento ordenado pelo imperador Augusto por volta do ano 7 a. C., o segundo diz respeito à morte do próprio rei Herodes, que terá ocorrido poucos dias antes da Páscoa judaica, numa altura em que foi testemunhado um eclipse lunar. Neste ponto começam as incongruências, isto porque o célebre eclipse, que naquele tempo foi logo à partida encarado como um presságio, teve lugar a 13 de Março, quatro anos antes da data fixada pelo monge Dionísio, “O Exíguo”, para o nascimento de Cristo.
No século VI, Dionísio, “O Exíguo”, um monge de origem cita, após inúmeros cálculos fixou como primeiro ano da Era Cristã o ano 754 ad urbe condita, ou seja, o ano 754 a contar da fundação de Roma, cometendo um erro de quatro anos que ficou a dever-se ao seu desconhecimento da data exacta da morte de Herodes que, hoje sabe-se, foi no ano 750 da fundação de Roma, isto é, no ano 4 a.C..

O fenómeno astronómico relatado por S. Mateus, o surgimento e uma estrela muito brilhante, que pode se entendida como sendo um cometa, é algo vago e impreciso. Porém, há que salientar que os fenómenos astronómicos eram muito bem documentados pelos astrólogos da Antiguidade, quer europeus quer asiáticos, até porque eram olhados com suspeita e associados a crenças supersticiosas ligadas não apenas ao nascimento de reis mas sobretudo à prática da agricultura e à guerra. O facto é que não existe referência a nenhum acontecimento de semelhante envergadura entre os anos 7 e 4 a.C., ou seja, entre o recenseamento de Augusto e a morte de Herodes. Por outro lado, as fontes assinalam a passagem de um cometa no ano 12 a.C. (o Cometa Halley), demasiado cedo…

Uma conjunção rara…

No início do século XVII, o astrónomo alemão Johannes Kepler apercebeu-se de um fenómeno raro, mas ainda assim previsível, uma conjunção entre os planetas Júpiter e Saturno na constelação de Peixes. Segundo os cálculos efectuados por Kepler, este acontecimento teve igualmente lugar no ano 7 a.C., o qual veio a ser confirmado já no século XX através da descoberta de umas tabuinhas babilónicas, escritas em caracteres cuneiformes, que aludem precisamente a esse evento astronómico. A partir daqui é fácil fazer uma leitura simbólica do fenómeno, a mesma que certamente os Magos do Oriente, eles próprios astrólogos, terão feito. Júpiter é o rei dos deuses e Saturno é um deus ligado ao tempo cronológico e à justiça: “nasceu o rei que trará a justiça aos homens”.

Se confiarmos inteiramente neste raciocínio, então poderemos afirmar que à data fixada para o seu nascimento, Jesus Cristo teria já completado 6 anos de idade ou até um pouco mais, tendo em consideração que os Magos terão chegado a Bethleém algum tempo depois… Talvez devêssemos estar agora no ano 2016 ou 2017 d.C.…

O facto de esta conjunção surgir na constelação de Peixes, também é digna de nota. O peixe, conotado com elemento “água”, foi identificado na Antiguidade com o Povo Hebraico, conduzido para fora do Egipto por Moisés, o “salvo das águas”. Mais tarde, o peixe tornou-se num emblema por excelência do Cristianismo e inclusivamente o seu desenho estilizado chegou a figurar em ânforas romanas independentemente do conteúdo destas, sobretudo a partir do dominato de Constantino, imperador que oficializou o Cristianismo no Império Romano (século IV d.C.). A somar a isto, a palavra grega para peixe, Ichthys, forma um acrónimo com as letras da frase Iesus Christus Theos Yios Soter, que significa “Jesus Cristo filho de Deus salvador”. O Nascimento de Cristo inaugurou a Era astrológica de Peixes.

Uma manta e retalhos…

A religião cristã é bastante eclética na sua origem, apresentando-se como uma colagem de diversos aspectos que podem ser observados noutras religiões orientais que ofereciam ao Homem respostas acerca da morte e da vida no Além, ao contrário da religião oficial do Império Romano, centrada em torno dos deuses capitolinos (Júpiter, Juno e Minerva), que era omissa em relação a estas questões tão caras à humanidade.

Teremos de olhar para o Mitraísmo para percebermos de que forma a meia-noite de 24 de Dezembro foi assumida como a noite da Natividade a partir do século IV d.C., noite essa que está longe de ser corroborada pelo Novo Testamento.
Mitra era um importante deus do Zoroastrismo e encontrava-se ligado à ideia de Justiça, à semelhança de Saturno, bem como à disciplina militar. Embora o Mitraísmo fosse originariamente um culto indo-iraniano, citado nos Vedas, revestiu-se de uma enorme importância para o exército romano entre os séculos II e IV d.C.. A mitologia persa apresenta-o como tendo nascido numa gruta, aquecido por animais numa manjedoura que lhe servia de berço. O seu nascimento, também ele assinalado por uma estrela ou cometa, era celebrado na noite de 24 de Dezembro. As semelhanças entre este mito e o nascimento de Jesus Cristo, que não param por aqui, são evidentes, o que nos leva a concluir que houve uma fusão entre a mitologia e a História ou, por que não dizer, uma apropriação de estatutos a nível religioso. Por outro lado, a data estabelecida para celebração do Natal, encontra-se muito próxima ou mesmo sobreposta às festividades pagãs ligadas ao culto de deuses solares e que assinalavam o Solstício de Inverno, o que, de certa forma, servia para cativar aqueles que ainda cultuavam esses antigos deuses, uma estratégia que, como é bem sabido, fez parte da política cristã até quase à Baixa Idade Média: se não se conseguia aproximar as pessoas do Cristianismo, aproximava-se o Cristianismo das pessoas.

Quanto à revista de pendor religioso que veio parar-me acidentalmente às mãos, tenho apenas a acrescentar que embora os seus argumentos sejam válidos do ponto de vista da crença, tornam-se mera propaganda inútil quando confrontados com a História e com a Astronomia. Não vale a pena especularmos tão fervorosamente sobre o que nunca existiu.



terça-feira, 9 de novembro de 2010

Não Há Espaço...

"Não estudamos para a vida, mas para a Escola." Séneca


A vida é um lugar demasiado exíguo para que possamos habitá-lo sem que sejamos alguma vez confrontados com o desejo de liberdade ou com a simples escolha entre o conformismo e a reivindicação.

Queremos sentir que pertencemos a algo, que fazemos parte de um elenco necessário ao desenrolar da trama da vida, queremos ter um sentido de existência, descobrir um lugar que apenas nós possamos ocupar, tal como uma peça num quebra-cabeças, um verso num poema ou uma estrela na imensidão do Universo. É então que nos deparamos com a mais lívida das constatações: não há espaço para nós.

A Escola não nos ensina a viver, só nos ensina a estudar.

Os anos dedicados somente ao estudo, funcionam como uma espécie de redoma que nos ausenta do mundo, criando em nosso redor um sistema alternativo e ilusório que afasta o real das nossas vidas e nos embala à beira de um precipício. Ao acordar, damo-nos conta de que o nosso tempo já passou, como alguém que recobra os sentidos ao fim de longos anos de coma e se apercebe de que envelheceu sem que tenha vivenciado tal transformação.

A Escola sempre foi vista como sendo um recurso moralmente aceitável para o crescimento orientado e, por que não assumir, restritivo, do espírito humano. Nos séculos XVIII e XIX, e de acordo com as palvras de Kant, a Escola existia não necessariamente para transmitir conhecimentos aos mais novos, mas, antes, para os instruir na tão nobre prática do obedecimento das regras impostas pela Sociedade, evitando que mais tarde exprimissem livremente os seus ideais ou sequer os construíssem.

Devo dizer que a Escola dos nossos dias conseguiu pela inépcia aquilo que a Escola do século XIX não conseguiu pelo rigor e pela disciplina: evitar a dissidência.

Embora as batalhas de hoje sejam ainda as mesmas que produziram heróis e criminosos no passado, as arenas onde são travadas já não lembram os antigos cenários politico-religiosos, a mesma fé e a mesma questão de honra que transbordavam dos enfáticos discursos de outrora. Hoje em dia não há dissidência porque não há idealismo. Onde estão as referências, os nomes e os rostos que se elevavam em estandartes sobre as cabeças dos estudantes revolucionários? Não estão mais, perderam-se algures numa nota de rodapé quando saltaram dos polémicos noticiários para os enfadonhos livros de História, quando deixaram de ser gritados nas ruas e maltratados por políticos ambiciosos e opressores e passaram a ser monocordicamente articulados pelo tédio dos professores de História. Em poucas décadas, os grandes líderes do século XX perderam o fulgor, como uma fogueira que arde e por fim se extingue, como um antídoto que deixa de surtir efeito.

Já Voltaire, dizia que o espírito criativo das crianças era sufocado por "conhecimentos inúteis". A inutilidade de certos conhecimentos impostos às crianças e aos jovens é questionável, mas não deixa de ser evidente a atrofia que o excesso de pormenor produz sobre a imaginação, um estrangulamento que resulta de imediato na frustração, no desânimo e na sensação de vazio, nesse mesmo vazio que Darwin referiu um dia ter sentido em relação à Escola.

A Escola deveria ser o mais fecundo alicerce da sociedade, não um mero instrumento de inibição do pensamento e, menos ainda, um mecanismo que impeça o acesso dos jovens ao mercado de trabalho. O aumento da escolaridade obrigatória tem sido sempre inversamente proporcional ao nível de exigência. Os conhecimentos diluem-se por doze anos de estudo obrigatório e acabam por se perder no marasmo da repetição. Se pegarmos, a título de exemplo, na matéria de História do 10º ao 12º ano, verificamos que o número de temas propostos, bem como o aprofundamento dos mesmos, torna-a estudável em pouco mais de 6 semanas e, no entanto, é prolongada por três anos.

Há no estudo um ócio perverso, um estatismo doloroso. Entretemo-nos, ao longo dos anos mais produtivos das nossas vidas, a arrecadar a escória das teorias de outros, entulho ideológico, bibelots ingénuos para os quais nunca encontramos lugar nas prateleiras da vida real, em vez de usarmos esse tempo imenso e tão fértil para construirmos o nosso próprio pensamento e darmos corpo aos nossos ideias. O ensino há muito se tornou um encosto: "encosta-te numa faculdade até teres vaga no mercado de trabalho". Não há espaço para tanta gente numa sociedade mecanizada. Antigamente, quando não havia uma "idade de reforma", também não havia uma "escolaridade obrigatória".

A Escola é um anestésico que nos torna incapazes de agir sobre as nossas próprias vidas e nos mortifica o espírito. O papel de "alavanca capaz de elevar o Povo ao nível da moral", como nas palavras de Guerra Junqueiro, adquiriu na actualidade um estatuto algo sombrio e esquivo, o de sorvedor da força que impulsiona a juventude a progredir. A estagnação é o seu mote e o refreamento o seu triunfo.

Estudar, é uma forma poética de dormir a vida.

sábado, 20 de março de 2010

Equação Emocional

Lembro-me de ter questionado a minha professora de História do 9º ano, acerca das causas que levaram ao crash da bolsa de Nova Iorque em 1929. A resposta foi insatisfatória mas consistente: os economistas não percebiam o que exactamente havia conduzido a tal fenómeno, por outras palavras, sabia-se como tinha acontecido, mas não o que o motivara.
Sempre que ouvimos falar das tragédias do passado ficamos apreensivos quanto ao futuro. A década que se seguiu ao crash trouxe desemprego em massa, carestia de vida e fome, flagelos que assolaram a sociedade ocidental por esta mesma ordem de acontecimentos, num efeito dominó. Ao entender, talvez, esse meu drama interior, a minha professora sossegou-me acrescentado que hoje em dia, entenda-se, há 14 anos atrás, o sistema económico havia sido aperfeiçoado para obstar a que um novo crash viesse a ocorrer e que, portanto, tal fenómeno não voltaria a dar-se. Só me recordo de ter pensado que se os próprios economistas não tinham conseguido prever o crash, com excepção de uma ou outra voz de Cassandra que ter-se-á manifestado naquele tempo, seria mais do que certo que algo do mesmo género voltasse a acontecer. Na verdade, assim como eu me interessei por perceber os mecanismos conducentes a esse facto histórico, também os historiadores e até psicanalistas e sociólogos se debruçaram sobre o assunto, chegando à mesma conclusão de que não era apenas possível haver novamente um crash bolsista, como este estava iminente.
Cálculos? Não, não fiz cálculos, nem eu nem os investigadores da História e da mente humana. A Economia não é matemática, é emoção pura! Enquanto os economistas não perceberem esta tão humana circunstância, muitos outros crashes suceder-se-ão. Quando as acções de uma dada empresa entram em queda, os accionistas em vez de começarem a comprá-las, como seria a atitude mais lógica, apressam-se a vendê-las e vice-versa, perdendo fortunas na roleta do sistema nervoso. Isto, por si só, demonstra até que ponto a Economia é um sistema irracional, assente na mais pura cadeia de impulsos psicológicos estimulados pelo meio.
Era eu ainda criança quando disse à minha mãe que um dia as casas seriam quase oferecidas, isto porque via à minha volta tanta gente sem ter onde morar e tantas casas ao abandono, não apenas casas antiquíssimas e belas mas também casas novas que ninguém comprava devido aos elevados preços praticados no mercado imobiliário. Em Portugal não chegámos ao ponto de comprar casas pelo preço de um cacho de bananas do tempo das colónias, mas na nossa vizinha Espanha levou-se mesmo ao pé da letra a célebre máxima de supermercado: “pague uma e leve duas”! Também isto, nenhum economista munido das suas matemáticas conseguiu prever.
Se julgamos que nos libertamos da emoção ao reduzir a nossa existência a uma fria equação matemática, plena de lógica e de razão, estamos muito enganados, e mais ainda quando o assunto é Economia. Há e sempre haverá crashes porque o homem tem fobia do real. O de 1929, tal como o que testemunhámos há dois anos, teve simplesmente a ver com o facto de o Homem dito “ocidental” ter deixado de pensar em bens de consumo concretos, com os cereais, o leite, a carne, os tijolos, as lãs, etc., para pensar exclusivamente em números expressos em acções, o mesmo é dizer, abstractizou a própria comida! Se havia uma tonelada de farinha, continuou a haver essa mesma tonelada. A crise económica de hoje, tal como o foi no passado, é mera patologia psicológica. O que realmente existiu, e existe, é uma crise financeira que acabou por contagiar a produção a todos os níveis. Trata-se, assim, de um vírus fictício que ataca um sistema impalpável, não o nosso prato!
Não sei se já vos ocorreu, mas sempre que usamos expressões tais como “bolsa de valores”, “dinheiro”, Ministério da Justiça”, “fronteiras”, entre milhares de tantas outras, não nos estamos a referir ao real perceptível, pois nada disto existe na Natureza, fomos nós, seres humanos, que criámos todos esses conceitos por temermos a realidade. Vivemos no Mundo Inteligível de Platão, enquanto o nosso corpo deambula pela esfera do Sensível e é confrontado com necessidades materiais. A dicotomia mente/corpo é a grande padroeira da angústia humana. Elevámos à nossa volta muros de fantasia para nos defendermos do espectro do real e afugentarmos a Natureza de onde viemos e com a qual já não sabemos lidar.
Não entendam este post como um ataque directo e deliberado a toda a Matemática, ainda que esta seja a maior das divagações possíveis, mas apenas à matemática inútil que se impõe entre nós e o real, reduzindo as nossas hipóteses de intuir o mundo e a sua espontaneidade. Ao complexificarmos cada vez mais o nosso pensamento, perdemos a capacidade de perceber as leis da simplicidade, as mesmas que outrora presidiram à construção das pirâmides egípcias, monumentos geniais cujo surgimento só pode hoje ser explicado com recurso a seres extraterrestres! As pontes romanas sobrevivem ao tempo porque a ele pertencem, suportam destemidamente as agressões da Natureza porque são unívocas com ela, enquanto as modernas obras de engenharia colapsam perante forças que as suas matemáticas ignoram.
Perdemo-nos de nós mesmos ao tentarmos domesticar o indomável, o nosso próprio espírito pleno de anseios e de ilusões. O simbolismo é a nossa glória tornada derrota pela desonra da ambição.
Quando tenho diante de mim um quadro escrito de um lado ao outro com a pomposa resolução de uma equação matemática penso: “Ainda bem que há quem pegue numa enxada para cultivar a terra, ou morreríamos todos de fome!”