quarta-feira, 23 de março de 2011

Censos Sem Senso

Raramente me insurjo contra questões governamentais, leis e afins, pois considero inútil e destituído de originalidade qualquer intervenção no sentido de rebaixar o Governo, já de si insuficiente e infantilizado. Mas não poderia deixar passar em branco esta oportunidade, já que ela me bateu à porta, literalmente falando…
Confesso que esperava muito mais dos Censos 2011 do que o questionário ingénuo que acabei de preencher.
Tanto no conteúdo como na forma, os actuais Censos aparentam ter sido pensados por uma mente estado-novista, vocacionada para escamotear informações comprometedoras da unidade e da coerência nacionais.
Comecemos pela questão final, a que aborda a religião de cada um de nós. Saberão estes senhores que o mundo evoluiu?

O objectivo de um recenseamento não se fica pela contagem do número de habitantes de um dado território, é muito mais que isso, contribui para a definição de um retrato o mais fiel possível da sua população, através da recolha de dados que possibilitem à Sociologia esclarecer padrões comportamentais, detectar alterações na malha social e, evidentemente, perceber os fenómenos sociais que conduzem ao desenvolvimento e à adesão a novas ou a velhas ideologias para, assim, antecipar eventuais problemas e possíveis soluções.

Há uns anos atrás, não sei precisar quando, os Censos realizados na Rússia revelaram que, naquele país, uma percentagem considerável da população estava a abandonar o Cristianismo Ortodoxo, que ainda hoje se mantém como religião oficial e maioritária, a favor de novas crenças ligadas a ideologias pagãs, animistas e a outras de pendor filosófico.

Na sequência da operação censitária que está agora a decorrer na nossa sociedade, se um tal fenómeno estiver igualmente a ter lugar, nunca se saberá, já que as possibilidades de resposta não contemplam quaisquer outras hipóteses para além das tradicionais que há muito se estudam e conhecem. A hipótese 7, “outra não cristã”, funcionará como um borrão neste esboço do país, criando a nível estatístico uma mancha obscura, indistinta e desprovida de emoção, logo sem qualquer interesse científico.

E o que tem de tão especial a religião para que eu lhe dedique tantas linhas? A religião corresponde não apenas a uma crença no invisível, mas sobretudo contribui para revelar a forma de estar e de sentir dos indivíduos, o seu nível cultural, as suas perspectivas. No caso russo, a adesão a novas religiões demonstra de modo inequívoco a descrença nos dogmas e nos cânones instituídos, o que deixa antever uma ruptura ideológica com o passado histórico, que irá inevitavelmente reflectir-se em todos os sectores da vida e conduzir a conflitos inter-geracionais dignos de especial atenção. As sociedades são como rios, nunca são as mesmas ao longo dos anos. Os seus leitos mantêm-se, mas as suas águas estão em constante movimento, como diria Heraclito de Éfeso.

Como me inscrevi para ser recenseadora, tive ainda oportunidade de assistir a uma pequena reunião sobre alguns procedimentos relativos ao recenseamento em si. A pessoa que a dirigiu, disse-nos que «no questionário individual ninguém é obrigado a pôr o nome verdadeiro, podem ser todas Marias e todos Maneis», acrescentando que algumas perguntas mais “pessoais” poderiam melindrar alguns cidadãos e levá-los a recusar responder, pelo que o mais importante seria a honestidade das respostas e não o nome de quem as teria dado.

Agora, lendo o questionário, questiono-me sobre quais seriam as perguntas “pessoais” a que a oradora se referia, já que eu não dei com elas… (Terei lido mal?)

Parece-me que a cereja podre do topo deste bolo insípido corresponde à questão número 32, onde se pode ler com todas as letras que «quem trabalha a recibos verdes mas tem um local de trabalho fixo dentro de uma empresa, subordinação hierárquica efectiva e um horário de trabalho definido, deve assinalar a opção trabalhador por conta de outrem». Até onde me é dado saber, os falsos recibos verdes são assim designados por não estarem enquadrados na Lei. Os Censos, em vez de demonstrarem claramente essa triste realidade paralela em que Portugal mergulhou, ocultam-na, desviam-na dos olhares mais sensíveis e cobardes, fazendo dos falsos recibos verdes uma espécie de Corcunda de Notre Dame que ninguém vê, mas que existe, para desespero de muitos e bem-estar de uns quantos.
Tratar-se-á da absolvição de um crime social ou de uma forma insolente e deliberada de mascarar os números?

Um movimento iniciado no facebook, propôs a todos os que se encontram nesta condição precária e ofensiva, a escolha da última hipótese, “outra situação”, e não a que as instruções soberbamente recomendam. Foi, portanto, o que fiz.

Não menos interessante, é o “questionário de alojamento”, onde podemos encontrar um vocábulo admirável, próprio, claro está, de outras eras. Estou a falar da “retrete”. Poderia ser latrina, só não o é porque não se lembraram! Impagável!

E o que dizer dos sem-abrigo que dormem à porta de urbanizações de luxo no Parque das Nações e que, por falta de opção, ficam recenseados como moradores dos ditos prédios? O Governo arranjou, finalmente, maneira de lidar com a miséria em Portugal. Eu não teria tido ideia melhor!

Tudo isto deixa de ter piada se pensarmos nos milhões de euros que a maior operação estatística do país vai custar ao Estado num momento financeiramente tão delicado como este que estamos a atravessar.

Para o ano que vem, vamos ficar a saber quantos somos, mas não como somos. Julgo que para se obter tão simplesmente um número, não teria sido necessário tanto papel.