quarta-feira, 6 de maio de 2015

Será que existe um verdadeiro "padrão social" que devemos seguir para obter sucesso?

«O inferno são os outros
Sartre

Por vezes sentimo-nos sós,  deslocados, temos aquela sensação de não-pertença, o que resulta frequentemente do facto de estarmos rodeados de pessoas muito diferentes de nós, pessoas que não sendo "erradas" não são as certas do nosso ponto de vista. E tantas vezes tomamos os efeitos pela causa e julgamo-nos pessoas erradas, orquídeas no jardim das rosas ou qualquer outra analogia que nos ocorra para expressarmos a nossa inadaptação.
 A questão é que embora nós gostássemos de encontrar facilmente as "nossas pessoas certas", não gostaríamos de ser iguais aos que encontram com facilidade as "suas pessoas certas", não trocaríamos quem somos pela vulgaridade de outrem.

Aquilo que a "sociedade" nos obriga a ser é para mim uma ofensa. Se bem que a sociedade é formada de muitas pessoas com opiniões diferentes e muitas delas também "diferentes" da maioria. Quando se chama a alguém de "vulgar" ou do "tipo comum", não é um elogio, todos nós sabemos disso. Ninguém gosta de ser do tipo comum, toda a gente gosta de ser especial de alguma forma, toda a gente gosta da diferença, gosta de se destacar. Os pais gostam que os filhos se destaquem sejam lá por onde for. Ninguém gosta de ser confundido, ninguém gosta de se diluir na multidão anónima, mas ainda assim somos aconselhados a ser iguais aos "outros" para obtermos sucesso na vida, o quer que esse "sucesso" seja... o quer que os "outros" sejam na opinião de quem nos aconselha. 

E ninguém protege ninguém ao tentar fazer com que a outra pessoa seja iguais aos demais, sobretudo porque os demais são todos, no fundo, diferentes uns dos outros. Se forçarmos uma baleia a ser um elefante, o mais que lhe acontecerá é morrer na savana, nunca será um elefante, será sempre uma baleia doente e inadaptada. A baleia tem de ser incentivada a procurar outras baleias ou então golfinhos e outros cetáceos, algo o mais parecido possível com ela.
O grande erro das pessoas é pensarem que existe de facto um padrão, quando ele não existe. Existem inúmeros padrões que apenas se interceptam superficial e aparentemente, porque ainda que na forma possam assemelhar-se, na motivação divergem de forma clara e inequívoca, e a motivação é muito importante para que não entrem em contradição uns com os outros na primeira curva. Temos tendência a pensar que existe uma sociedade que pensa, age e sente como um único ser, isto é pensamento simbólico, não é realidade. A "sociedade" não é uma pessoa, são inúmeras e todas diferentes, que partilham uma parte de si umas com as outras mas nunca a sua totalidade. Se nos adaptarmos a uma pessoa, estaremos a desviar-nos de outra, é sempre assim. Por isso resulta mal tentarmos ser o que não somos; alguns casos acabam em tragédia, pessoas que em desespero pegam em armas umas contra as outras após anos e anos de falsa adaptação.

Imaginem isto em termos de cores. A pessoa A é azul e encontra as pessoas B e C que são esverdeadas e que a aconselham a tornar-se também verde. As pessoas B e C não têm exactamente o mesmo tom de verde, mas querem acreditar que sim para não se sentirem sós, então optam por nunca falarem de assuntos polémicos ou mais profundos, porque tais tópicos podem denunciar as suas nuances contraditórias. A pessoa A não sabe disto e tenta seguir o conselho e tornar-se verde. Mais adiante encontra a pessoa D, que é azul, e que lhe diz que de verde ela não irá longe, que deveria ser azul. Frustrada, a pessoa A diz que azul já ela era antes de ter sido aconselhada a mudar pelas pessoas verdes. A pessoa D pergunta-lhe por que foi ela na conversa dos outros se já tinha a cor certa.
Eu já fui uma pessoa A.

Nunca agradamos a toda a gente, e para tentarmos fazê-lo não podemos jamais passar do superficial. Mas a vida é um laboratório onde fazemos experiências, nós é que levamos isto demasiado a sério por questões de ordem prática, mas na verdade o objectivo da vida é aprendermo-nos a nós mesmos, não é ganhar dinheiro, isso foi o ser humano que inventou, por questões práticas... Sempre as questões práticas, que de práticas têm muito pouco e só nos afastam dos verdadeiros objectivos, já para não falar que o "prático" cada vez se afasta mais do real em direcção ao simbólico. Vejam o caso do dinheiro, cada vez mais afastado do valor real da economia ao ponto de um problema financeiro se distinguir de um problema económico.

Precisamos de conhecer quem realmente somos e não aquilo em que nos tornámos por incentivo alheio ao longo da vida. Muitas vezes chegamos ao ponto de já não conseguirmos distinguir o que somos daquilo em que nos tornámos, só sabemos que não nos sentimos realizados nem felizes, que há algo que não correu bem mas que não conseguimos identificar.

E quando seguimos um conselho errado, somos deixados sozinhos no erro alheio, que passa a ser o nosso, ninguém quer acompanhar-nos nas derrotas, só nas vitórias. A maioria dos pais que erra ao aconselhar os filhos, não os defende quando a vida lhes correr menos bem.